quarta-feira, 19 de maio de 2010

CINEMA: ANTES QUE O MUNDO ACABE

Um envelope pardo e uma disputa amorosa são as peças-chaves para a trama de Antes Que O Mundo Acabe (Brasil, 2009), uma incursão sutil e certeira no complexo universo da adolescência. Na fictícia Pedra Grande, no interior do Rio Grande do Sul, onde o meio de transporte predominante é a bicicleta, vive Daniel (Pedro Tergolina), um adolescente de 15 anos sem muitas ambições, cujo tempo divide entre as aulas no colégio católico, o melhor amigo Lucas (Eduardo Cardoso) e a namoradinha Mim (apelido para Jasmim, papel da atriz Bianca Menti). A vida do garoto começa a sacudir quando um envelope remetido da Tailândia chega para ele pelo correio, quase ao mesmo tempo em que Mim resolver lhe pedir um tempo, abrindo espaço para o amigo Lucas entrar na disputa pelo coração da garota.
Alguns eventos são desencadeados a partir desses episódios, e o modo com que Daniel passa a encarar o mundo e as pessoas a sua volta é a essência da história contada pela diretora Ana Luiza Azevedo, estreante em longas metragens. Forma-se então um jogo de atos, consequências e responsabilidades interessante e cativante. De forma simples e direta, o filme se desenrola e evolui com graça, divertindo e comovendo. Produzida pela Casa de Cinema de POA, a fita acerta o tom e transforma em um enredo criativo um tema tão comum e em parte já banalizado pelo cinema contemporâneo.
Com belas locações naturais e externas filmadas em Porto Alegre (destacando pontos famosos do Centro), além de uma trilha sonora "bacaninha", Antes Que O Mundo Acabe mostra o mundo sob o olhar destes jovens, com seus conflitos internos, seus becos sem saída, seus medos e suas indecisões, e comprova que ser jovem hoje em dia não é tão fácil quanto possa parecer. O elenco, formado por atores desconhecidos, dá um tempero extra na trama através de boas interpretações e passa em muitas cenas um ar familiar e nostálgico: impossível não se reconhecer em várias situações cotidianas que acontecem conosco constantemente, mas que chegam com outra graça na tela de cinema, quando aqui, delas somos os voyeurs. As cenas dramáticas são tiradas de eventos que nos soariam triviais, mas que na fita, bem trabalhados, ganham força. As cenas mais divertidas aparecem para fazer o equilíbrio, dentre as quais, a menina Maria Clara (Caroline Guedes), irmã caçula de Daniel, é a protagonista-mor.
Ponto para a equipe, que soube conduzir o bom roteiro, escrito pela diretora em parceria com Paulo Halm, baseado no livro homônimo de Marcelo Carneiro Da Cunha, sem introduzir reviravoltas surpreendentes, apelar para a polêmica ou para a comoção fácil, e ainda assim prender o espectador e agradá-lo em cheio.

terça-feira, 18 de maio de 2010

CINEMA: O IMAGINÁRIO MUNDO DO DR. PARNASSUS

O Imaginário Mundo Do Dr. Parnassus (The Imaginarium Of Doctor Parnassus, 2009) causa certo desconforto e estranheza a quem o assiste e levanta questões do tipo "o que estou fazendo aqui?" e "será que alguém está entendendo?". Antes de qualquer outro comentário, o filme é chato - com uma barreira de real X imaginário quebrada cada vez que os personagens atravessam um espelho falso colocado no palco onde se apresenta o decrépito Dr. Parnassus (Christopher Plummer) do título, forma-se uma confusão de quem é quem e do que está acontecendo na história.
A trama retrata a história do Dr. Parnassus, um homem com o poder de manipular a mente das pessoas. Séculos atrás ele fez uma aposta com o diabo (o cantor Tom Waits) cujo prêmio foi a vida eterna. Mais apostas vieram, e eis que Parnassus aposta a alma de sua filha Valentina (Lily Cole), perde e vê-se desesperado a tentar recuperá-la. Junto de Valentina e do jovem Anton (Andrew Garfield), Parnassus percorre as ruas de Londres com seu hoje fracassado show de encantamento, até que em uma noite deparam-se com Tony (Heath Ledger, o Coringa de O Cavaleiro Das Trevas), um homem enforcado embaixo de uma ponte. Após o salvamento, o misterioso Tony passa a integrar a trupe e suas habilidades de persuasão tornam-se essenciais na disputa do Dr. com o cínico diabo pela alma de Valentina. O grande mistério do filme encontra-se em compreender as verdadeiras intenções de cada personagem e saber separar o que é real do que é a mente do Dr. Parnassus - tarefa árdua que, por volta da metade do filme torna-se desistência e logo converte-se em prece para que os créditos subam logo.
Dirigido por Terry Gilliam (o mesmo de Os Irmãos Grimm), ex-integrante do grupo cômico Monty Python, o que mais chama a atenção para a fita é o fato de ela ter sido o último trabalho de Ledger e mais um item na coleção de má sorte e contratempos das produções que envolvem o diretor, cujo histórico com problemas é famoso no meio cinematográfico. Desta vez o problema foi bem grave, devido ao falecimento do ator durante as filmagens. Para contornar a situação, a saída encontrada foi substituí-lo nas cenas em que Tony penetra no mundo imaginário - um revezamento entre os tarimbados Jude Law, Johnny Depp e Collin Farrell - cujo resultado saiu confuso e desastroso.
De bacana mesmo, o filme possui boas interpretações e um visual bacana. Com ares ciganos e circenses, o figurino e os cenários são supreendentes, com uma beleza de cores e detalhes imagináveis apenas na mente do Dr. Parnassus. Eis um título que, por mais tentador que pareça o trailer e o cartaz, é melhor passar longe.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A DESPEDIDA DE NIP/TUCK

Ninguém pode acusar o produtor Ryan Murphy e sua equipe de produção em Nip/Tuck por falta de originalidade: a série conseguiu polemizar, chocar e ao mesmo tempo apresentar sob um ângulo no mínimo curioso o universo das relações interpessoais, tendo como pano de fundo uma clínica de cirurgia plástica. No ar desde 2003 e tendo como protagonistas a dupla de sócios/amigos/rivais/co-irmãos isseparáveis e icorrigíveis Sean McNamara (Dylan Walsh) e Christian Troy (Julian McMahon), a trama dá adeus aos fãs neste início de 2010, em uma sequência que não se definiu ao certo ser a 7ª temporada ou a 6ª dividida em duas partes.
Ao contrário de muitas séries que são canceladas sem aviso prévio, Nip/Tuck já tivera seu final planejado durante a exibição da 5ª temporada, deixando tempo e ideias de sobra para os roteiristas e produtores planejarem o destino de seus personagens. Talvez por boa parte da equipe ter se debandado para a produção de Glee, a nova série de Murphy e uma das maiores sensações desta fall season, Nip/Tuck foi bastante prejudicada em sua reta final, principalmente no que disse respeito ao roteiro.
A falta de motivação e o sumiço longo de alguns dos personagens, as reviravoltas sem fim na trama e o grotesco em escalas superlativas causaram marasmo à série e produziram episódios totalmente desnecessários, onde nada acontecia e nada contribuia para dar qualquer rumo à história. Figuras antes importantes, como a inconstante Kimber (Kelly Carlson), o filho problemático Matt (John Hensley) e a própria Dra. Liz Cruz (Roma Maffia) mudaram tanto em tão curto tempo que se tornaram estorvos ao invés de pivôs de algo mais importante. Julia (Joely Richardson), que um dia fora o terceiro nome do elenco, simplesmente não existiu nos últimos dois anos da série: apareceu vez ou outra só para incendiar, causar desconforto na trama e sumir na cena seguinte. E, quanto os protagonistas, tornaram-se algo próximo de um casal de meia-idade com crise no casamento, brigando por qualquer bobagem e reatando para voltar a brigar de novo...
Pode-se dizer que depois de 7 anos, o final da série veio tardio. O longo hiato da 5ª temporada teria sido suficiente para o planejamento de um final no mínimo mais digno e melhor resolvido, sem a necessidade de uma longa espera e de uma longa enrolação. A conclusão da trama terminou não sendo boa para quase ninguém, mas, após tantas desventuras, não tinha como ser diferente. Como mérito louvável, foi selado o destino de cada um dos personagens e reforçados os laços de afeto que tanto os ligaram e separaram no decorrer de todo esse tempo, sempre envolvendo o flerte com o bizarro, com a pornografia, com a violência e com o que havia de mais sombrio no ser humano, onde o limite sempre foi a imaginação.

domingo, 16 de maio de 2010

CINEMA: TUDO PODE DAR CERTO

Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works, 2009), o mais recente filme de Woody Allen (responsável aqui pelo roteiro e pela direção), traz o comediante Larry David no papel de Boris, um velho solitário e ranzinza. Boris se julga uma mente privilegiada e, com uma carga colossal de mau humor e intolerância, ele é desprovido de qualquer pudor ou trava na língua quando o negócio é criticar ou ofender diretamente as pessoas, sejam adultos ou crianças - sua estupidez é tão ácida que chega a ser engraçada em diversas passagens. O que Boris não contava era com a chegada de Melody (Evan Rachel Wood) em sua vida.
Melody, por sua vez, é uma pós-adolescente simplória e de miolo mole. Fugida das garras da mãe dominadora (Marietta, vivida por Patricia Clarkson, presença constante nos filmes de Allen), a moça vem do interior para se aventurar na cidade grande e é justamente aí que seu caminho se cruza com o de Boris. A química que surge entre os dois, mesmo que inusitada, causa diálogos divertidíssimos, irônicos e com um quê de inteligência, outra marca característica da carreira do diretor. Contar o segmento da história seria estragar a surpresa para quem ainda não assistiu, mas pode-se dizer que são consideráveis as mudanças dadas na trama.
Longe de ser um dos melhores filmes de Allen, mesmo dentre os mais recentes, Tudo Pode Dar Certo é mediano e se salva pelo fator cômico da trama. Embora o diretor cultive um teor cômico bobo, às vezes cedendo espaço ao pastelão e ao absurdo, muito de seu trabalho se deve à repetição de fórmula, algo que tem dado certo até hoje. Nas poucas escapadas do formato, o diretor se saiu bem, mas é no chão da comédia que ele parece ainda mais à vontade. E, aqui, apesar da simplicidade da fita, pode-se considerar bem contada sua visão sobre mudanças de atitudes e suas devidas consequências.

SUPERNATURAL: O FINAL DA 5ª TEMPORADA

Era para ser o final definitivo da saga dos irmãos Winchester - tão verdade é que, após o anúncio de renovação para uma 6ª temporada, o produtor e criador da série Eric Kripke pulou fora do barco. Deste ponto em diante, será o que Deus quiser, ou, para entrar no contexto atual da série, o que o diabo quiser...
Desde o início da temporada tudo levava a crer que em maio deste ano o Impala preto 1971 finalmente descansaria em paz na garagem, mas os bons índices de audiência, a legião crescente de fãs da série e a máxima sempre válida no show business de "sugar tudo até a última gota", levaram os executivos do canal CW a renová-la por mais um ano, mesmo com os rumos da história apontando para um final a partir do qual se tornaria bem difícil retomá-la. Na verdade, Supernatural estava empacada em um mesmo tema há pelo menos 3 temporadas: foi-se o tempo em que haviam episódios isolados da trama principal e que os irmãos se deparavam com criaturas e monstros sobrenaturais diferentes de demônios ou anjos. Criou-se desde lá um universo céu-inferno cheio de criaturas ambíguas, lugares inimagináveis, fronteiras tênues entre a vida e a morte e situações tempo-espaço difíceis de se compreender. A cada temporada, a série estava se tornando uma encheção constante de linguiça, o que provou sua mais recente fall season, encerrada nesta última quinta-feira.
Tamanhos foram os artifícios empregados na produção para não terminar a série de acordo com o planejado e deixar gordura para queimar por pelo menos mais um ano, que houve uma série de episódios desnecessários e de títulos desconexos, com tramas e personagens enxertados à força para atrasar o desenlace dos destinos dos irmãos Sam (Jared Padalecki) e Dean (Jensen Ackles) Winchester. As participações mais constantes do amigo Bob (Jim Beaver) e do anjo Castiel (Misha Collins), embora muito bem-vindas, contribuiram com novas tramas paralelas que mais ajudaram a enrolar o desenvolvimento da temporada do que a evoluir. No fim das contas, obteve-se um saldo positivo, com um final satisfatório e um gancho no mínimo interessante para stembro/outubro próximo. O receio maior vem do que será feito com isso e de quanto mais a série vai segurar firme até sair de controle e permanecer no ar apenas para faturar. O histórico de sua co-irmã Smallville, rumando para uma 10ª temporada, dá pistas do que pode acontecer, mas agora é hora de descansar a cabeça de tantos anjos e demônios e rezar para a próxima fall nos trazer boas novas.

sábado, 15 de maio de 2010

CINEMA: CHICO XAVIER

Brasil, o país com a maior população de espíritas do mundo, tem na figura do médium Chico Xavier (1910 - 2002) seu maior representante. A cinebiografia entitulada Chico Xavier (2010) e dirigida por Daniel Filho faz um apanhado geral sobre a vida e a trajetória do mineiro, desde sua sofrida infância até seu reconhecimento como o maior médium que o país já conheceu, tendo publicado mais de 400 obras psicografadas.
Nos moldes tradicionais de toda adaptação biográfica, a história contada por Daniel Filho mostra Chico Xavier em 3 fases de sua trajetória: quando criança (o ator mirim Matheus Costa), quando jovem adulto (Ângelo Antônio, a melhor das 3 interpretações) e na etapa mais madura de sua vida (Nelson Xavier). Amparada por um elenco estrelar da Rede Globo, a fita calça a narrativa sobre duas entrevistas dadas por Chico em 1971 no programa Pinga-Fogo, da extinta TV Tupi. Há espaço ainda para retratar suas primeiras experiências mediúnicas, o preconceito sofrido pelo espiritismo, a caridade por Chico praticada (o auxílio aos pobres e o consolo dado através de psicografias para pessoas desoladas pela morte de entes queridos) e sua relação com o espírito Emmanuel (André Dias), seu mentor.
Não há como negar que o filme, de certa forma, celebra o espiritismo, mas seria impossível separar a doutrina da história do médium. De qualquer forma, a narrativa é desenvolvida em um nível de fácil entendimento, o tom do drama não é apelativo ou sobrenatural, chegando a ser abrandado com alívios cômicos em algumas partes, para, além de contar a história, também divertir a audiência: tudo foi meticulosamente ajustado para o formato família, para agradar da criança à vovó. Sem julgar o teor propositadamente comercial, o filme tem o seu valor e é no mínimo interessante como biografia e homenagem respeitosa à memória do grande ser humano que foi Chico Xavier, independente de crenças ou intenções.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

CINEMA: O MELHOR E O PIOR DE ALICE

O trailer, veiculado nas salas de cinema convencionais e 3D há quase um ano, anunciava: vem aí uma nova versão de Alice No País Das Maravilhas (Alice In Wonderland, 2010), mesclada com o conto Alice Através Do Espelho - e a promessa é de uma versão magnífica e nunca antes imaginada sobre as obras literárias de Lewis Carroll (1832-1898). O comandante? Tim Burton, um diretor conhecido por sua criatividade aguçada e pelo flerte com o sombrio em seus trabalhos - a princípio, o candidato perfeito para conduzir o projeto - a princípio...
A expectativa gerada em torno do filme foi grande, e tornou-se uma espera infindável graças ao adiamento de sua estreia no Brasil em quase 2 meses em relação aos demais países do globo (dizem por aí que o adiamento se deu em detrimento da permanência de Avatar nas salas 3D e de uma expecativa não concretizada da fita de James Cameron arrebanhar os principais prêmios do Oscar 2010). A tão esperada chegada aos nossos cinemas, assim como a brincadeira do telefone sem fio, nos leva a refletir sobre até onde se pode reinventar ou repassar uma história adiante.
A expectativa sobre a visão de Alice nos olhos de Burton tornou-se uma ilusão ainda maior do que a vivida pela personagem nos livros escritos por Carroll no distante século XIX. Boa parte por sua associação aos estúdios Disney na produção do trabalho, Burton, aliado ao roteiro estapafúrdio de Linda Woolverton (prata da casa, responsável, dentre diversos títulos, pelos roteiros de Mulan e do primeiro Rei Leão) tornou um clássico da literatura e, por que não dizer, da filosofia popular, em uma colcha de retalhos sem sentido, onde os personagens estão irreconhecíveis e muito do tempo é desperdiçado em uma aventura medieval enfadonha, nos moldes de O Senhor Dos Anéis e As Crônicas De Nárnia.
O filme é visualmente impecável, nos mínimos detalhes do figurino e da computação gráfica violentamente empregada. O uso do 3D, embora tímido em algumas passagens, quando empregado, chega a ser vertiginoso: a cena da queda de Alice no buraco, os objetos atirados na telona pela Lebre de Março (voz de Paul Whitehouse) e a cena de vôo com Tweedledee e Tweedledum (voz e expressões faciais de Matt Lucas) são incríveis e merecem respeito pela elaboração. O recurso foi bem empregado em algumas cenas também para dar ideia de planos e profundidade.
Os atores estão muito bem na história: embora poucos personagens sejam de carne e osso, a atuação dos dubladores é excelente (o filme conta com nomes do peso de Alan Rickman e Stephen Fry, respectivamente a Lagarta Azul e o risonho Gato de Cheshire). Dentre os personagens reais, a Alice adulta e depressiva escolhida por Burton (a atriz Mia Wasikowska) foi uma escolha felicíssima - Mia é carismática e apática na medida certa para o papel. Embora seja um desparate do diretor querer sobrepor a protagonista com um personagem secundário em prol da escalação de seu ator predileto, a participação de Johnny Depp como o Chapeleiro Louco está mais uma vez impecável - o maior problema do personagem é sua própria composição, sugerida pelo roteiro. Helena Bonham Carter mostra domínio de atuação ao viver a malvada, hilária e cabeçuda Rainha Vermelha (na verdade, um mix da Rainha de Copas do primeiro livro com a própria Rainha Vermelha do segundo), enquanto Anne Hathaway vive uma Rainha Branca esquisitona e sem sal.
A sensação de decepção com boa parte do filme é inevitável: o filme perdeu toda a ironia e a arrogância desde o ponto em que os habitantes do País das Maravilhas, antes psicóticos e malvados, tornaram-se um bando de bichinhos bonzinhos e fofos. O nascimento de uma Alice guerreira e de duas facções de gladiadores sob o comando das duas rainhas coloridas foi a pior escolha possível - na intenção de tornar o filme ainda mais comercial, a investida da Disney arruinou qualquer suspiro de dignidade que a adaptação ainda mantinha.
No fim das contas, esta releitura de Alice No País Das Maravilhas reduz-se a um filme lindo de se ver, mas difícil de engolir.

CINEMA: HOMEM DE FERRO 2

Em cartaz nos cinemas brasileiros desde o dia 30 de abril, Homem De Ferro 2 (Iron Man 2, 2010), não só é uma continuação do filme de 2008, como também um upgrade na atmosfera que envolve a história do herói - esteja ele vestido com a armadura de ferro ou com as roupas Tony Stark (Robert Downey Jr.).
Em termos de qualidade e de ação, ninguém fica devendo nada para ninguém: o que se perde por um lado, ganha-se pelo outro. Em uma via, o personagem de carne e osso vivido por Downey Jr. cresce na fita, em tom afetado e arrogante, de modo que torna-se impossível não amá-lo e odiá-lo ao mesmo tempo. Por outra, o roteiro sofreu com alguns furos e alguns pulos dados para diminuir os trâmites da história e focar-se mais na ação. Alguns eventos, como o desenvolvimento do vilão Chicote Negro (Mickey Rourke) e o surgimento da Máquina De Guerra (Don Cheadle) parecem em certos momentos imediatos demais e desprovidos de uma motivação maior. Acertos como as participações contidas de Sam Rockwell como o ambicioso Justin Hammer, Scarlett Johansson na pele da Viúva Negra e a reprise de Gwyneth Paltrow como Virgínia "Pepper" Potts, em detrimento de um espaço maior para o protagonista, foram providenciais para dar gás ao filme e não atê-lo a uma gama de tramas paralelas desnecessárias.
Homem De Ferro 2 cumpre bem o seu papel e com certeza será uma das maiores bilheterias deste ano no verão americano, que já iniciou sua temporada de blockbusters. O ator/diretor Jon Favreau soube repetir a fórmula de sucesso do primeiro filme e, de canja, ainda deu os ares da graça no papel de Happy Hogan, o motorista e braço direito de Stark. Um terceiro volume está encomendado e em fase de elaboração, possivelmente para 2012, o ano em que também deveremos ver o Homem De Ferro lutando ao lado de Hulk, Thor e Capitão América em Os Vingadores (The Avengers), dos quais os dois últimos heróis, além de estarem com seus filmes próprios em fase de produção, ainda deixam pistas de sua eminente chegada nesta película aqui comentada. Esperem até depois dos créditos para ver!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

COMÉDIAS: CADÊ OS MORGAN? / CAÇADOR DE RECOMPENSAS

Para o dia de hoje, duas dicas de comédias que foram conferidas recentemente. Embora diferentes, são visivelmente notáveis, mesmo pela descrição, as semelhanças entre as duas fitas - desde o enredo até a estrutra da história. Tendência ou repetição, os dois títulos abaixo são recomendados para garantir boas gargalhadas - e ainda estão em cartaz, basta correr até o cinema e aproveitar!



Comediazinha romântica básica, Cadê Os Morgan? (Did You Hear About the Morgans?, 2009) junta dois pesos-pesados do gênero: Sarah Jessica Parker e Hugh Grant. Na trama, o casal novaiorquino Meryl (Parker) e Paul (Grant) vivem um momento de crise no casamento, e, eis que em uma noite, testemunham um assassinato e, por conta disso, são obrigados a integrar um programa de proteção às testemunhas que os leva para viver no interior do estado americano do Wyoming, na companhia de um xerife casca-grossa e sua esposa linha-dura. A partir daí não é difícil adivinhar o que se segue: trapalhadas rurais, mistérios policiais envolvendo o crime que o casal testemunhou e todo aquele redescobrimento do romance dos dois. O diretor Marc Lawrence (Miss Simpatia 1 e 2, Letra E Música), já experiente no gênero, é quem comanda a festa.



Mais divertido, mais frenético e menos refinado, Caçador De Recompensas (The Bounty Hunter, 2010) traz o galã da vez Gerard Butler (300, O Fantasma Da Ópera) na companhia da sempre queridinha da América Jennifer Aniston (Amigas Com Dinheiro, Marley E Eu). Butler vive um ex-policial que ganha a vida caçando foragidos de julgamentos e vê a sorte grande no dia que recebe como missão capturar sua ex-mulher, vivida por Aniston. A trama central ainda envolve uma investigação jornalística sobre um suposto suicídio, que traz à história bastante ação, correrias e tiroteios. Esta comédia romântica pseudo-policial, dirigida por Andy Tennant (o mesmo de Hitch - Conselheiro Amoroso) é uma boa pedida com bastante ação para rir e se divertir.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A HORA DO PESADELO

Sob a guarda do renomado diretor de videoclipes Samuel Bayer e da produção de figurões, dentre os quais o lucrativo diretor Michael Bay, o famigerado vilão Freddy Kruger volta à ativa em uma nova versão do clássico de horror oitentista A Hora Do Pesadelo (A Nightmare On Elm Street, 2010).
Bayer, um diretor de videoclipes estiloso e de talento, tem em seu currículo serviços prestados a grandes bandas, dentre as quais Metallica, Green Day e Cranberries. Este reboot, por assim dizer, de A Hora Do Pesadelo é seu primeiro trabalho para a tela grande. Para quem conhece seu trabalho no ramo musical, torna-se fácil identificar suas marcas e padrões, que vão desde as cores desbotadas até a opção por cantos escuros, cenários sujos e objetos macabros - nada mais adequado para um filme de terror. Sua mão caiu bem para o filme, mas infelizmente não é só isso que faz a película...
De um modo geral, refilmagens sempre são vistas com o nariz torcido e - convenhamos - a falta de imaginação hollywoodiana, cada vez pior, leva os gananciosos estúdios a refilmar e reinventar obras cada vez mais recentes: meros 26 anos separam o surgimento de Freddy Kruger na telona desta versão 2010. Para completar, por mais tosca ou dispensável que tenha sido a, por assim dizer, "vida" de Freddy no cinema, o monstro tornou-se um ícone de toda uma geração que ouvia Michael Jackson, bebia Coca-Cola em garrafinha de vidro e se divertia em turma assistindo fitas de terror retiradas na locadora nos sábados a noite. Refazer um filme deste porte, sobretudo com um novo ator encarnando o demoníaco senhor dos pesadelos, é um passo um tanto ousado e, para alguns mais fanáticos, uma heresia.
O frisson causado tem lá seus fundamentos, mas boa parte das críticas negativas recebidas tem fundo preconceituoso. Poucos sustos - verdade - mas, para um filme de terror nos dias de hoje, até que este se sai bem, e sem abusar demais dos clichês. Embora seja estranho um rosto diferente do ator Robert Englund sob a pele queimada de Freddy, o substituto escolhido Jackie Earle Haley foi um acerto, uma vez que seu próprio semblante sem maquiagem já é assustador. Haley parece à vontade no papel e, embora seu Freddy tenha perdido a força em relação ao de Englund, parte da culpa é do roteiro, que muda um bocado os fatos da história e reinventa um Freddy menos sádico e mais vingativo. Os únicos aspectos de fato melhorados da versão original para esta foram o visual e os efeitos especiais, que estão muito bem feitos e injetam uma certa graça ao filme.
A iniciativa de adaptar a história para os dias de hoje, levantando assuntos como pedofilia e uso de medicamentos, além de escalar para o elenco rostos jovens dá vida nova à franquia, que, segundo rumores, já tem engatilhada mais duas sequências e a participação do vilão na parte 2 do péssimo Freddy Vs. Jason. Haja falta de imaginação...