sexta-feira, 14 de maio de 2010

CINEMA: O MELHOR E O PIOR DE ALICE

O trailer, veiculado nas salas de cinema convencionais e 3D há quase um ano, anunciava: vem aí uma nova versão de Alice No País Das Maravilhas (Alice In Wonderland, 2010), mesclada com o conto Alice Através Do Espelho - e a promessa é de uma versão magnífica e nunca antes imaginada sobre as obras literárias de Lewis Carroll (1832-1898). O comandante? Tim Burton, um diretor conhecido por sua criatividade aguçada e pelo flerte com o sombrio em seus trabalhos - a princípio, o candidato perfeito para conduzir o projeto - a princípio...
A expectativa gerada em torno do filme foi grande, e tornou-se uma espera infindável graças ao adiamento de sua estreia no Brasil em quase 2 meses em relação aos demais países do globo (dizem por aí que o adiamento se deu em detrimento da permanência de Avatar nas salas 3D e de uma expecativa não concretizada da fita de James Cameron arrebanhar os principais prêmios do Oscar 2010). A tão esperada chegada aos nossos cinemas, assim como a brincadeira do telefone sem fio, nos leva a refletir sobre até onde se pode reinventar ou repassar uma história adiante.
A expectativa sobre a visão de Alice nos olhos de Burton tornou-se uma ilusão ainda maior do que a vivida pela personagem nos livros escritos por Carroll no distante século XIX. Boa parte por sua associação aos estúdios Disney na produção do trabalho, Burton, aliado ao roteiro estapafúrdio de Linda Woolverton (prata da casa, responsável, dentre diversos títulos, pelos roteiros de Mulan e do primeiro Rei Leão) tornou um clássico da literatura e, por que não dizer, da filosofia popular, em uma colcha de retalhos sem sentido, onde os personagens estão irreconhecíveis e muito do tempo é desperdiçado em uma aventura medieval enfadonha, nos moldes de O Senhor Dos Anéis e As Crônicas De Nárnia.
O filme é visualmente impecável, nos mínimos detalhes do figurino e da computação gráfica violentamente empregada. O uso do 3D, embora tímido em algumas passagens, quando empregado, chega a ser vertiginoso: a cena da queda de Alice no buraco, os objetos atirados na telona pela Lebre de Março (voz de Paul Whitehouse) e a cena de vôo com Tweedledee e Tweedledum (voz e expressões faciais de Matt Lucas) são incríveis e merecem respeito pela elaboração. O recurso foi bem empregado em algumas cenas também para dar ideia de planos e profundidade.
Os atores estão muito bem na história: embora poucos personagens sejam de carne e osso, a atuação dos dubladores é excelente (o filme conta com nomes do peso de Alan Rickman e Stephen Fry, respectivamente a Lagarta Azul e o risonho Gato de Cheshire). Dentre os personagens reais, a Alice adulta e depressiva escolhida por Burton (a atriz Mia Wasikowska) foi uma escolha felicíssima - Mia é carismática e apática na medida certa para o papel. Embora seja um desparate do diretor querer sobrepor a protagonista com um personagem secundário em prol da escalação de seu ator predileto, a participação de Johnny Depp como o Chapeleiro Louco está mais uma vez impecável - o maior problema do personagem é sua própria composição, sugerida pelo roteiro. Helena Bonham Carter mostra domínio de atuação ao viver a malvada, hilária e cabeçuda Rainha Vermelha (na verdade, um mix da Rainha de Copas do primeiro livro com a própria Rainha Vermelha do segundo), enquanto Anne Hathaway vive uma Rainha Branca esquisitona e sem sal.
A sensação de decepção com boa parte do filme é inevitável: o filme perdeu toda a ironia e a arrogância desde o ponto em que os habitantes do País das Maravilhas, antes psicóticos e malvados, tornaram-se um bando de bichinhos bonzinhos e fofos. O nascimento de uma Alice guerreira e de duas facções de gladiadores sob o comando das duas rainhas coloridas foi a pior escolha possível - na intenção de tornar o filme ainda mais comercial, a investida da Disney arruinou qualquer suspiro de dignidade que a adaptação ainda mantinha.
No fim das contas, esta releitura de Alice No País Das Maravilhas reduz-se a um filme lindo de se ver, mas difícil de engolir.

CINEMA: HOMEM DE FERRO 2

Em cartaz nos cinemas brasileiros desde o dia 30 de abril, Homem De Ferro 2 (Iron Man 2, 2010), não só é uma continuação do filme de 2008, como também um upgrade na atmosfera que envolve a história do herói - esteja ele vestido com a armadura de ferro ou com as roupas Tony Stark (Robert Downey Jr.).
Em termos de qualidade e de ação, ninguém fica devendo nada para ninguém: o que se perde por um lado, ganha-se pelo outro. Em uma via, o personagem de carne e osso vivido por Downey Jr. cresce na fita, em tom afetado e arrogante, de modo que torna-se impossível não amá-lo e odiá-lo ao mesmo tempo. Por outra, o roteiro sofreu com alguns furos e alguns pulos dados para diminuir os trâmites da história e focar-se mais na ação. Alguns eventos, como o desenvolvimento do vilão Chicote Negro (Mickey Rourke) e o surgimento da Máquina De Guerra (Don Cheadle) parecem em certos momentos imediatos demais e desprovidos de uma motivação maior. Acertos como as participações contidas de Sam Rockwell como o ambicioso Justin Hammer, Scarlett Johansson na pele da Viúva Negra e a reprise de Gwyneth Paltrow como Virgínia "Pepper" Potts, em detrimento de um espaço maior para o protagonista, foram providenciais para dar gás ao filme e não atê-lo a uma gama de tramas paralelas desnecessárias.
Homem De Ferro 2 cumpre bem o seu papel e com certeza será uma das maiores bilheterias deste ano no verão americano, que já iniciou sua temporada de blockbusters. O ator/diretor Jon Favreau soube repetir a fórmula de sucesso do primeiro filme e, de canja, ainda deu os ares da graça no papel de Happy Hogan, o motorista e braço direito de Stark. Um terceiro volume está encomendado e em fase de elaboração, possivelmente para 2012, o ano em que também deveremos ver o Homem De Ferro lutando ao lado de Hulk, Thor e Capitão América em Os Vingadores (The Avengers), dos quais os dois últimos heróis, além de estarem com seus filmes próprios em fase de produção, ainda deixam pistas de sua eminente chegada nesta película aqui comentada. Esperem até depois dos créditos para ver!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

COMÉDIAS: CADÊ OS MORGAN? / CAÇADOR DE RECOMPENSAS

Para o dia de hoje, duas dicas de comédias que foram conferidas recentemente. Embora diferentes, são visivelmente notáveis, mesmo pela descrição, as semelhanças entre as duas fitas - desde o enredo até a estrutra da história. Tendência ou repetição, os dois títulos abaixo são recomendados para garantir boas gargalhadas - e ainda estão em cartaz, basta correr até o cinema e aproveitar!



Comediazinha romântica básica, Cadê Os Morgan? (Did You Hear About the Morgans?, 2009) junta dois pesos-pesados do gênero: Sarah Jessica Parker e Hugh Grant. Na trama, o casal novaiorquino Meryl (Parker) e Paul (Grant) vivem um momento de crise no casamento, e, eis que em uma noite, testemunham um assassinato e, por conta disso, são obrigados a integrar um programa de proteção às testemunhas que os leva para viver no interior do estado americano do Wyoming, na companhia de um xerife casca-grossa e sua esposa linha-dura. A partir daí não é difícil adivinhar o que se segue: trapalhadas rurais, mistérios policiais envolvendo o crime que o casal testemunhou e todo aquele redescobrimento do romance dos dois. O diretor Marc Lawrence (Miss Simpatia 1 e 2, Letra E Música), já experiente no gênero, é quem comanda a festa.



Mais divertido, mais frenético e menos refinado, Caçador De Recompensas (The Bounty Hunter, 2010) traz o galã da vez Gerard Butler (300, O Fantasma Da Ópera) na companhia da sempre queridinha da América Jennifer Aniston (Amigas Com Dinheiro, Marley E Eu). Butler vive um ex-policial que ganha a vida caçando foragidos de julgamentos e vê a sorte grande no dia que recebe como missão capturar sua ex-mulher, vivida por Aniston. A trama central ainda envolve uma investigação jornalística sobre um suposto suicídio, que traz à história bastante ação, correrias e tiroteios. Esta comédia romântica pseudo-policial, dirigida por Andy Tennant (o mesmo de Hitch - Conselheiro Amoroso) é uma boa pedida com bastante ação para rir e se divertir.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A HORA DO PESADELO

Sob a guarda do renomado diretor de videoclipes Samuel Bayer e da produção de figurões, dentre os quais o lucrativo diretor Michael Bay, o famigerado vilão Freddy Kruger volta à ativa em uma nova versão do clássico de horror oitentista A Hora Do Pesadelo (A Nightmare On Elm Street, 2010).
Bayer, um diretor de videoclipes estiloso e de talento, tem em seu currículo serviços prestados a grandes bandas, dentre as quais Metallica, Green Day e Cranberries. Este reboot, por assim dizer, de A Hora Do Pesadelo é seu primeiro trabalho para a tela grande. Para quem conhece seu trabalho no ramo musical, torna-se fácil identificar suas marcas e padrões, que vão desde as cores desbotadas até a opção por cantos escuros, cenários sujos e objetos macabros - nada mais adequado para um filme de terror. Sua mão caiu bem para o filme, mas infelizmente não é só isso que faz a película...
De um modo geral, refilmagens sempre são vistas com o nariz torcido e - convenhamos - a falta de imaginação hollywoodiana, cada vez pior, leva os gananciosos estúdios a refilmar e reinventar obras cada vez mais recentes: meros 26 anos separam o surgimento de Freddy Kruger na telona desta versão 2010. Para completar, por mais tosca ou dispensável que tenha sido a, por assim dizer, "vida" de Freddy no cinema, o monstro tornou-se um ícone de toda uma geração que ouvia Michael Jackson, bebia Coca-Cola em garrafinha de vidro e se divertia em turma assistindo fitas de terror retiradas na locadora nos sábados a noite. Refazer um filme deste porte, sobretudo com um novo ator encarnando o demoníaco senhor dos pesadelos, é um passo um tanto ousado e, para alguns mais fanáticos, uma heresia.
O frisson causado tem lá seus fundamentos, mas boa parte das críticas negativas recebidas tem fundo preconceituoso. Poucos sustos - verdade - mas, para um filme de terror nos dias de hoje, até que este se sai bem, e sem abusar demais dos clichês. Embora seja estranho um rosto diferente do ator Robert Englund sob a pele queimada de Freddy, o substituto escolhido Jackie Earle Haley foi um acerto, uma vez que seu próprio semblante sem maquiagem já é assustador. Haley parece à vontade no papel e, embora seu Freddy tenha perdido a força em relação ao de Englund, parte da culpa é do roteiro, que muda um bocado os fatos da história e reinventa um Freddy menos sádico e mais vingativo. Os únicos aspectos de fato melhorados da versão original para esta foram o visual e os efeitos especiais, que estão muito bem feitos e injetam uma certa graça ao filme.
A iniciativa de adaptar a história para os dias de hoje, levantando assuntos como pedofilia e uso de medicamentos, além de escalar para o elenco rostos jovens dá vida nova à franquia, que, segundo rumores, já tem engatilhada mais duas sequências e a participação do vilão na parte 2 do péssimo Freddy Vs. Jason. Haja falta de imaginação...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

UM OLHAR DO PARAÍSO

Antes da triologia O Senhor Dos Anéis, Peter Jackson era praticamente um desconhecido no circuito hollywoodiano. Quase 10 anos após o lançamento de A Sociedade Do Anel, o diretor neozelandês, também roteiritsa e produtor, é hoje um dos nomes mais cotados do cinema contemporâneo. É dele também a direção da refilmagem titaniquesca de King Kong (2005) e do recente Um Olhar Do Paraíso (The Lovely Bones, 2009), baseado na elogiadíssima obra literária de mesmo título, lançada em 2002 por Alice Sebold.
Além da competência na direção, Jackson tem feito fama por suas boas escolhas e pelas boas equipes que compõe a cada produção, garantindo sucesso e qualidade às obras - pode-se dizer que em Um Olhar Do Paraíso isso não é diferente: embora o filme não obtenha um mérito grandioso de excelência, a soma de trabalho no roteiro, na produção e no desempenho do elenco garantem um resultado bastante satisfatório e proporcionam alguns momentos de beleza e leve envolvimento ao contar a história de Susie Salmon (Saoirse Ronan, em ótima atuação), uma menina de 14 anos brutalmente assassinada, cujo espírito fica preso em um lugar entre o céu e a Terra, ansiando por justiça e pelo fechamento de eventos que não conseguiu cumprir em vida.
A trama belisca em assuntos que envolvem a condição do espírito e a questão da vida e da morte, sem defender nenhuma frente ou provocar polêmicas - na verdade, o fator é muito mais espiritual do que religioso, representado belamente (e às vezes até de forma meio confusa) por imagens e metáforas que se apresentam para Susie durante seu período neste "meio do caminho". Abre-se espaço para o suspense e a ação no arco que envolve o assassino de Susie, o vizinho e psicopata George Harvey (Stanley Tucci, amedrontador e quase irreconhecível). Há ainda um alívio cômico garantido por Susan Sarandon, muito bem situada no papel de avó e, por fim, há toda a comoção familiar, de onde saem bons momentos dramáticos protagonizados pelos pais da menina, interpretados por Rachel Weisz e Mark Wahlberg (milagrosamente despido da canastrice habitual).
Com uma certa arrastação e alguns contratempos de história desnecessários que nos remetem a Ghost e outras clicherias de filmes com espíritos, inclusive os de terror, a fita tem um desfecho coerente e consegue emocionar contidamente a platéia, o que já é um mérito, quando se tem uma história que, em mãos erradas, poderia virar um dramalhão sem precedentes e pôr tudo a perder. Trata-se de um trabalho realizado com capricho, com arestas aparadas e com o bom gosto pelo qual Peter Jackson se orgulha de ser reconhecido.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

PERCY JACKSON E O LADRÃO DE RAIOS

É difícil assistir Percy Jackson E O Ladrão de Raios (Percy Jackson & the Olympians: The Lightning Thief, 2010) e não sair com a impressão de que o filme é um plágio descarado de tudo que já foi feito em Hollywood para o público infanto-juvenil.
Baseada no livro homônimo de Rick Riordan, a história gira em torno de Percy Jackson (Logan Lerman), um garoto que descobre ter poderes especiais por ser filho de Poseidon (Kevin McKidd) - o deus do Olimpo que rege os mares - e que, mesmo sem saber, foi acusado pelos deuses por ter roubado o raio de Zeus (Sean Bean), fato que promete desencadear em uma guerra cujo campo de batalha será a Terra. Acompanhado da bela guerreira Annabeth (Alexandra Daddario) - filha da deusa Atena (Melina Kanakaredes) - e de seu protetor, o sátiro (metade homem, metade bode) Grover (Brandon T. Jackson), Percy embarca em uma aventura através dos Estados Unidos que os leva desde um jardim de estátuas habitado pela perigosa Medusa (Uma Thurman, em uma ponta impagável) até as profundezas do inferno, comandadas por Hades (Steve Coogan) e sua voluptuosa esposa Perséfone (Rosario Dawson), para enfim confrontar o verdadeiro ladrão de raios e tentar restituir a paz entre os superiores do Olimpo. O elenco conta ainda com a participação do ex-007 Pierce Brosnan e Catherine Keener como mãe de Percy, em um look riponga vergonhoso.
O filme, embora com um certo esforço, até que é divertido - verdade seja dita: os efeitos especiais, a abundância de ação e certas cenas que fogem do universo infantil para um patamar mais adulto (como a ambientação do inferno, por exemplo) contribuem mais para o desenvolvimento da fita do que a trama por si só. As referências à mitologia grega surgem a todo instante, e isso se torna um pouco chato, pois há tentativas de encaixá-las em lugares incabíveis, tornando a história toda boba demais. A mão de Chris Columbus na direção torna evidente a comparação com a série de filmes Harry Potter, uma vez que o diretor foi o condutor dos dois primeiros longas do bruxinho - a essência da história e a narrativa se assemelham muito em certas partes, onde o universo de J. K. Rowling ainda leva a melhor na disputa. Não é preciso muito esforço para encontrar diversas referências também às Crônicas De Nárnia, O Senhor Dos Anéis e filmes antigos que referenciam a mitologia, como Fúria de Titãs (que, por sinal, ganhou refilmagem a ser lançada ainda este ano). O fato é que é difícil encontrar originalidade absoluta em um mercado saturado de ideias e com uma sede infindável por inovação, mas em Percy Jackson há abusos excessivos de releitura, parafraseamento, referências e homenagens. Pensei em ler o livro mais adiante, mas tenho receio de descobrir que no papel acontece a mesma coisa - e, para essa constatação, será preciso bem mais que as 2 horas de duração da versão cinematográfica.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

O LOBISOMEM

O Lobisomem (Wolfman, 2010) é, antes de mais nada, uma homenagem ao terror clássico. Refilmagem da fita de 1941, a nova versão revive, agora em forma de superprodução, o período denominado "A Era de Ouro da Universal", em que o estúdio emplacou grandes sucessos do gênero terror, em sua maioria envolvendo criaturas sinistras, como lobisomens, vampiros, monstros do pântano e até o próprio Frankenstein.
Com Benicio Del Toro na pele de Lawrence Talbot, um ator teatral que acaba por ser mordido por uma criatura noturna que ataca pessoas, o filme, que conta ainda com os nomes de Anthony Hopkins, Emily Blunt e Hugo Weaving no elenco, é pura referência aos filmes antigos de terror - desde o enquadramento até a fotografia, a trilha sonora e a forma com que as cenas mais fortes assustam de súbito. A melhor maneira de encará-lo é como uma obra retrô, com todo o clima trash, a construção da história lenta e crescente e até com um quê de inocência no terror empregado. Querer compará-lo com as obras de terror moderno, a maioria descartáveis, torna-se complicado, uma vez que o único fator em comum é a própria intenção de assustar. O Lobisomem leva-se a sério enquanto história, mas é descompromissado com a realidade e com os aparatos do cinema moderno, sem medo de mostrar criaturas com aparências toscas e de passar uma mensagem de que aquilo tudo de fato parece real.
A ambientação na Inglaterra do século XIX e a opção por um trabalho fotográfico escuro e enevoado dão um clima de antigo à fita, e provavelmente essa seja mesmo a ideia. O diretor Joe Johnston (de The Rocketeer, Jumanji e Jurassic Park III) captou com eficiência a essência da história e consegue um resultado satisfatório para este remake, proporcionando à platéia uma experiência de túnel do tempo, onde volta-se a apreciar o cinema clássico e instigante dos anos 40, porém, agora, com o toque de requinte das superproduções e da tecnologia disponíveis para nossos tempos.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O FANTÁSTICO SR. RAPOSO

Ao contrário das animações para crianças com animaizinhos que estamos acostumados a assistir, produzidas por grandes estúdios como a Dreamworks e a Pixar, O Fantástico Sr. Raposo (Fantastic Mr. Fox, 2009), filme mais recente de Wes Anderson (diretor de Viagem A Darjeeling e Os Excêntricos Tenenbaums), mostra que, embora engraçadinhos e com comportamentos semelhantes aos nossos, na essência os animais são sempre selvagens e, nada mais representativo para isso do que a figura ladina e feroz da raposa.
Dublado por George Clooney, Sr. Raposo (ou Mr. Fox) é um colunista de jornal, no passado um ladrão de aves que teve de entrar nos eixos com o nascimento de seu filho Ash (voz de Jason Schwartzman) e o casamento com a devotada Sra. Raposa (voz de Meryl Streep). Sr. Raposo tem muitas motivações, das quais a principal é não morrer pobre em uma toca, o que o leva a comprar uma elegante casa na árvore, vizinha de 3 grandes fazendas produtoras de frango, ganso e cidra. Bem diz o ditado que "a raposa perde o pelo mas não perde o vício", e não leva muito até que o pai de família volte às raízes, bolando planos de invasão às fazendas para satisfazer sua sede pelo roubo, pela bebida e pela carne fresca. A revolta dos fazendeiros contra os golpes da raposa que desencadeia em uma perseguição massiva à família e, consequentemente, aos demais animais da região, é o fio condutor da história, baseada no livro do falecido escritor inglês Roald Dahl.
Produzido com a técnica de stop motion com bonecos, o filme é o primeiro trabalho do diretor neste feitio, que tende a conduzir filmes geralmente diferentes, onde O Fantástico Sr. Raposo não é exceção. A distribuição exclusiva de cópias legendadas nos cinemas é a principal evidência de que, embora com aspecto inocente, a fita não é para crianças. Em essência, são tratados, com muito bom humor, três elementos básicos: prole, instinto e sobrevivência - casualmente os elementos mais primitivos na existência de todos os seres vivos. Personagens pitorescos, diálogos estranhos e acrobacias divertidas complementam as peripécias das raposas, gambás, texugos, coelhos e outros animais. O recurso de animação, tecnicamente regular perante o deslumbre das grandes produções de animação atuais, está presente muito mais para ilustrar o conto e divertir do que para impressionar - Sr. Raposo é uma das raras exceções no mundo da animação onde a narrativa se sobrepõe ao visual e, embora o filme não seja mais que "bom", o resultado é interessante.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

HEROES - SEASON 4 FINALE

Na última segunda-feira (08/02), a rede de TV americana NBC levou ao ar o episódio final da 4ª temporada de Heroes, uma das séries mais polêmicas da atualidade. Polêmica não pelo conteúdo, mas pela discussão que tem provocado entre os fãs, grande parte decepcionados com a constante derrocada de qualidade do programa. Os evidentes problemas que a série tem enfrentado junto ao público já vêm desde a temporada anterior, com quedas na audiência, críticas negativas e o próprio interesse da emissora, que nesta fall season concedeu menos episódios à série (somente 19) e terminou por encerrar a temporada 3 meses antes do normal.
Esta última temporada teve pequenas melhorias em relação às 2 anteriores: podem se considerar positivos a redução de personagens novos com importância significativa, a redução das viagens no tempo e o fechamento de arcos desinteressantes sobre os quais os roteiristas ainda insistiam. Nesta temporada ainda houve espaço para a resolução de algumas turbulências de percurso, como a retirada definitiva do personagem Nathan Petrelli (Adrian Passdar), a cura do tumor cerebral de Hiro Nakamura (Masi Oka) e a resolução do seu romance platônico e desnecessário com a garçonete Charlie (Jayma Mays). A entrada providencial do personagem Samuel Sullivan (Robert Knepper) também ajudou a tornar a série um pouco mais interessante neste ano.
Por outro lado, a série continua com sérios problemas "pendurados", que são heranças das ruins 2ª e 3ª temporadas. Alguns personagens estão perdidos na história, sem função ou motivação, aparecendo pouco e desempenhando papel quase que nenhum na trama - dois bons exemplos disso são Tracy (Ali Larter) e Angela Petrelli (Cristine Rose). Sylar (Zachary Quinto) há muito tornou-se um elefante branco na série, sem haver um jeito de eliminá-lo, e a solução dos roteiristas terminou por ser infeliz, transformando o vilão invencível em mocinho no final desta 4ª temporada. Noah Bennet (Jack Coleman) é mais um em cima do muro, com motivações que mudam de lado a todo instante e não dão um rumo ao personagem. E estes são apenas alguns exemplos...
Com a promessa de um Admirável Mundo Novo (Brave New World), o título do episódio final da temporada e também do próximo volume da série (se sair a esperada renovação que ainda não foi concedida pela NBC), pode vir uma última chance da saga de heróis se redimir com o público e com a audiência, garantindo-lhe uma sobrevivência maior do que a expectativa atual. Pelo que se ouve e se lê por aí, são necessários diversos ajustes na série, como a instituição de um foco/motivação únicos para cada personagem, a eliminação de alguns excedentes de arcos e personagens que não se fazem mais necessários e o retorno da expectativa por um evento importante - de preferência uma grande catástrofe -, sem contar o aumento dos duelos e das cenas de ação cheias de efeitos, que têm deixado a desejar e seriam o mínimo a se esperar de uma série como Heroes.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

GUERRA AO TERROR

Da diretora Kathryn Bigelow, Guerra Ao Terror (The Hurt Locker, 2008) é um dos mais fortes candidatos ao Oscar 2010, batendo de frente com seu ex-marido, o também diretor James Cameron, e seu Avatar, ambos com 9 indicações às estatuetas.
Indicado, entre outras categorias, para melhor direção, melhor roteiro original e melhor filme, Guerra Ao Terror narra a rotina de combatentes norte-americanos na infindável Guerra do Iraque, em uma divisão anti-terrorismo especializada no desarmamento de bombas. O filme se sobressai aos filmes de guerra produzidos nos últimos anos, sobretudo ao fugir do heroísmo incondcional do exército estadunidense e da instituição de uma tirania inimiga - a sensibilidade da diretora ignorou as já cansativas manobras políticas de guerra e acrescentou humanidade à trama. Não há uma tentativa de reflexão sobre as causas o conflito. Há, sim, uma demonstração do horror e da destruição causados no país - na paisagem e na população -, da pressão sobre os soldados, da gravidade do seu ofício e do impacto que isso causa em suas mentes. Uma frase mais que conveniente abre a primeira cena da fita: "A guerra é uma droga" - vicia, alucina, mata...
No elenco, o indicado Jeremy Renner interpreta o soldado William James, um desarmador de bombas destemido, que quebra protocolos e se arrisca pessoalmente nas situações de perigo extremo. Junto a ele, atuam diretamente o sério Sargento JT Sanborn (Anthony Mackie) e o atormentado novato Owen Eldridge (Brian Geraghty). Com pontas de Guy Pearce, David Morse, Ralph Fiennes e Evangeline Lilly (a Kate de Lost), a história é exclusivamente focada nas missões da unidade e no perigo envolvido - a tensão que sai da tela prende o expectador à poltrona do início ao fim, com pouco espaço para respirar.
Até então pouco falado no circuito internacional, o filme chamou a atenção de sindicatos e críticos, colocando-o no centro das grandes premiações deste ano e elevando-o a um patamar de reconhecimento merecido. Trata-se de um filme muito bem feito, escrito e dirigido. Sem levantar bandeiras, sua mensagem é sutil e muito mais assustadora quando se lê nas entrelinhas das imagens, das cidades em ruínas, do povo oprimido, do chão sem verde e das atitudes de homens comuns que se tornam soldados da noite para o dia, entregam-se de corpo e alma e parecem não ter mais nada a perder.